Pisar em Marte? Sim, mas só depois de 2050. Com sorte!

Seres humanos no planeta vermelho. Com certeza, somos movidos por desafios. Mas essa é uma realidade ainda distante, muito distante. Vale a pena entender. Confira.

CIÊNCIAS

6/13/202635 min read

Depois do sucesso da missão Artemis II ao levar o homem à Lua, de 1 a 11 de abril, portanto há dois meses somente, tenho ouvido muita gente dizer que o envio de uma nave espacial tripulada a Marte não irá demorar.

Há poucas semanas, o tema surgiu em uma conversa entre amigos e conhecidos, vários com formação acadêmica em suas áreas de atuação, e confesso ter me impressionado com a convicção de muitos sobre a construção de uma base humana no planeta vermelho em “no máximo 10, 12 anos”.

Uau! Será maravilhoso se parte importante dos habitantes da Terra estiver certa e a comunidade científica internacional ter um entendimento equivocado a respeito do verdadeiro potencial tecnológico e financeiro, a curto prazo, das várias agências espaciais levarem o homem a pisar não apenas na Lua, senão em outro astro do sistema solar.

No texto abaixo procuro mostrar as muitas razões de eu me colocar do lado do mundo da ciência e, infelizmente, entender ser necessário esperar ainda ALGUMAS DÉCADAS até pisarmos no planeta vermelho. O grifo é meu.

Não estou aqui para desanimar ninguém, por favor, até porque sou um apaixonado por tudo o que diz respeito ao espaço, à Física, à Astrofísica, à Astrobiologia e afins. Mas considero importante entrar mesmo em detalhes sobre o imenso desafio de a Nasa, seus parceiros privados, Space X, Blue Origin, Axiom Space - e empresas envolvidas nos seus programas, como Northrop Grumman e United Launch Alliance, dentre outras, levarem uma tripulação de astronautas até Marte, para uma viagem de necessariamente três anos, no mínimo.

As demais agências espaciais estão ainda mais distantes de planejar um programa para o envio de uma missão tripulada ao planeta vermelho. São elas a ESA, europeia, que na realidade trabalha junto da Nasa nesse sentido, a Roscosmos, russa, CNSA, da China, Jaxa, do Japão, e a ISRO, Índia.

Elon Musk prestou um desserviço

Vocês viram que o ultra bem-sucedido empresário Elon Musk anunciou dia 6 de fevereiro o adiamento do lançamento das missões a Marte de sua empresa, a Space X, por cinco a sete anos, a fim de se concentrar nas missões lunares?

Musk planejou realizar o primeiro voo a Marte ainda nessa década com o objetivo de, com o passar dos anos, levar nada menos de um milhão de humanos para lá a bordo de sua espaçonave reutilizável, como uma forma de garantir a sobrevivência de nossa espécie em caso de catástrofe maior com a Terra.

A humanidade deve agradecer Musk por sua paixão pelo espaço e incrível desprendimento ao bancar projetos milionários de interesse não apenas seus, mas de todos. Isso é uma coisa. Outra é difundir a ideia de que viajar a Marte depende quase que apenas de dispor de dinheiro e desejar realizar a viagem, a toque de caixa.

Uma parte da população passou a acreditar que em breve um foguete da Space X levaria uma nave tripulada ao planeta vermelho. E a partir daí o seu serviço de lotação se encarregaria de transportar famílias e o que fosse necessário para a criação de uma colônia em Marte. Ficção científica desconexa, ao menos no começo do século XXI.

Em um voo tripulado a Marte há infinitos motivos a mais com o que se preocupar do que com o já complexo programa da Artemis II de, por 11 dias, levar quatro astronautas na avançada nave Orion, impulsionada pelo superfoguete Space Launch System (SLS), por 400 mil quilômetros até a Lua, realizar um voo orbital e trazê-los em segurança de volta à Terra.

Viagem de nove meses, só de ida.

A começar pelo já apresentado, o tempo de viagem: algo como nove meses na ida, permanecer um ano e meio na superfície de Marte, à espera do momento apropriado entre as duas órbitas ao redor do Sol, para então poder decolar de volta, e mais nove meses no deslocamento para casa. São muitas e severas as implicações, todas potencialmente letais.

Não mencionei os custos por merecer um capítulo à parte – está no final do texto - e ser, nesse momento, o principal fator capaz de estender consideravelmente o planejamento efetivo de uma missão tripulada a Marte, com especificação de datas para cada etapa do programa. Simplesmente não existe ainda.

As providências a serem tomadas para viabilizar algo tão grandioso e arriscado, sob todos os pontos de vista, são bastante grandes e caras, muito caras.

Não pense, por gentileza, que já conhecemos todos os desafios e como superá-los. A maioria, sim, mas como nunca fizemos nada parecido nessa extensão, com certeza surgirão problemas, por sorte, nas simulações que até agora não havíamos detectado ou mesmo suposto.

Um dos objetivos principais do Programa Artemis da Nasa é exatamente esse, experimentar soluções de engenharia, tecnologia, medicina, dentre outras, que deverão ser adotadas para encarar a enxurrada de sérios obstáculos em uma missão tripulada a Marte. Um detalhe: as particularidades de uma empreitada dessas impõem que as falhas toleráveis sejam poucas. Não há ninguém por perto para dar uma mão.

A Lua, e suas certas semelhanças com Marte, como quase ausência de atmosfera e de proteção à radiação solar e de raios galácticos, será o local onde poderemos testar vários dos recursos da futura viagem já estudados, aqueles em curso de definição e outros por serem ainda desenvolvidos.

Base lunar permanente

Você viu que no dia 26 de maio o administrador da Nasa, Jared Isaacman, apresentou em uma conferência de imprensa o projeto MoonFall, destinado a construir uma base lunar permanente até 2032? E que o objetivo maior desse megaprograma é estudar as necessidades do envio de uma missão tripulada a Marte?

O próprio Issacman falou, em outra oportunidade, que os planos da agência espacial americana e seus parceiros é realizar a viagem com astronautas até Marte em 2039, ou seja, daqui a somente 13 anos!

Senhores, conversei com dois amigos, de larga formação acadêmica técnica, leitores contumazes de notícias da exploração espacial, como eu, um na França e outro na Itália, e classificamos como “excessivamente otimista” o prazo anunciado pelo administrador da Nasa para a humanidade dispor de uma base permanente na Lua, com astronautas residindo lá por longos períodos de tempo.

Mais ainda quanto à projeção de chegarmos em Marte em 2039. Sem presunção de nossa parte, por favor, hein? A Nasa com alguma regularidade adia seus lançamentos. E não há nenhum mal nisso, dada a complexidade de seus projetos. Anormal seria se não surgisse nenhum fato novo que não obrigasse seus supercompetentes profissionais a rever certos processos. Não é por outra razão que a grande maioria das iniciativas da Nasa resulta em grande sucesso.

Não temos procuração de ninguém, mas textos que leio de mídias da área, de várias nações, denotam a mesma impressão: ainda estamos um pouco longe de dispor de uma base lunar e, em especial, enviar uma missão tripulada a Marte.

O Programa Artemis faz parte de uma estratégia integrada da Nasa chamada “Moon to Mars”, ou da Lua para Marte.

Em 2027 a Artemis III fará, com quatro astronautas a bordo, definidos e apresentados dia 9, na última terça-feira, um voo em órbita baixa da Terra para testar a capacidade de encontro e acoplamento entre a cápsula Orion e outras secções da nave espacial, necessárias para o pouso na Lua.

Inspirado no sucesso do programa Apollo

A Nasa repete a receita do Programa Apollo. Antes da Apollo 11 pousar com segurança na Lua, no dia 20 de julho de 1969, a Apollo 9 testou o acoplamento e a separação dos módulos de comando e lunar na órbita terrestre. E a Apollo 10 estendeu o teste até a Lua, dois meses apenas antes do pouso da Apollo 11, com o módulo lunar chegando a 15 quilômetros da superfície da Lua. Tudo isso validou a tecnologia para o êxito do projeto de pousar lá.

Já a Artemis IV está prevista para o início de 2028 e, aí sim, pousará com astronautas na Lua – a última vez foi em dezembro de 1972, com a Apollo 17 - e levará os primeiros equipamentos para a construção da base humana permanente da superfície do nosso satélite natural.

Esse texto é bemmm longo, como de hábito, amigos. Estejam preparados. Mas se desejar dispor de um amplo painel, um raio X do megadesafio de mandar uma missão tripulada ao planeta vermelho, acredito reunir aqui o que de mais importante deverá ocupar a mente dos brilhantes engenheiros, astrofísicos, químicos, médicos, biólogos, psicólogos, dentre outros envolvidos, além de deixar clara as imensas dificuldades, de toda natureza, para a humanidade pisar em outro planeta.

Procurei inserir o tema do voo tripulado a Marte dentro de um conceito histórico. Repare como os acontecimentos relacionados ao simples domínio do voo com aviões pioneiros, no início do século XX, e aos primeiros contatos com o espaço, meio século somente mais tarde, nos levaram a conclusões enganosas. Você entenderá melhor em breve.

A seguir descrevo cada uma das muitas áreas de estudos que há algum tempo grupos de pesquisa, em vários rincões do planeta, se dedicam para tornar possível o complexo projeto de pisar em Marte e regressar vivo a Terra.

Irmãos Wright, Yuri Gagarin, Neil Armstrong

Atentem à surpreendente cronologia dos acontecimentos. Combinado?

No dia 17 de dezembro de 1903, o americano Orville Wright fez o que a história registra como primeiro voo motorizado e controlado de uma aeronave mais pesada que o ar. A Flyer 1, com seu motorzão de quatro cilindros, capaz de disponibilizar 12,5 cavalos de potência, lhe permitiu deslocar-se no ar por 36 metros, durante 12 segundos, a uma velocidade de 11 km/h. Ventos fortes contrários de 43 km/h auxiliaram a Flyer 1 manter sustentação.

Logo depois, no mesmo dia, seu irmão, Wilbur, fez outros voos. No quarto e último, permaneceu no ar por 59 segundos e avançou 260 metros. Foi sobre as dunas de areia da cidade litorânea de Kitty Hawk, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

Avancemos no tempo, 58 anos. Estamos no dia 12 de abril de 1961. Do cosmódromo de Baikonur, na então República Soviética do Cazaquistão, a nave Vostok 1 decolou com o piloto de caça Yuri Gagarin a bordo para realizar o primeiro voo espacial da humanidade. Permaneceu 108 minutos no espaço a uma altitude máxima de 327 quilômetros.

O Vostok 1 desenvolvia 5 milhões de Newtons de empuxo. A conversão para cavalos de potência, para comparar com o motor da Flyer 1 dos irmãos Wright, é complexa por conta da enorme variação de velocidade do foguete, que atingiu impressionantes 28.300 km/h!

Mas já foi possível compreender a radical diferença entre a realidade técnica dos irmãos Orville e Wilbur e a do russo Gagarin, apesar de os dois experimentos terem ocorrido em um intervalo de tempo somente pouco superior a meio século.

Vamos em frente. Nada menos de 600 milhões de habitantes da Terra assistiram ao vivo, na TV, no dia 20 de julho de 1969, a transmissão da descida do astronauta Neil Armstrong pela escada do módulo lunar Eagle para simplesmente tocar, sentir, caminhar na superfície da Lua, distante cerca de 384 mil quilômetros da Terra.

Muitos têm ainda viva na mente a sua célebre frase: “Um pequeno passo para um homem, um passo gigantesco para a humanidade”. O homem estava na Lua.

Educação equivocada

Das profundas incertezas quanto até mesmo à sobrevivência de Gagarin, no pioneiro voo espacial ao redor da Terra, ao também inédito pouso de uma nave tripulada na Lua, com dois astronautas prontos para explorá-la, passaram-se exíguos oito anos. A velocidade impensável do avanço nas conquistas espaciais causou um grande impacto na humanidade.

Fascinante, é verdade, mas também deixou sequelas, ao educá-la de forma equivocada, levando-a a acreditar que o avanço pelo Universo poderia seguir a mesma dinâmica, onde tudo se resolvia de maneira rápida e, incrivelmente, sem incidentes maiores.

As pessoas se perguntavam onde poderíamos chegar. Gagarin virou celebridade mundial, desfilou em carro aberto por vários países, por testemunhar que “A Terra é azul”, como afirmou de dentro da Vostok 1.

E, contra as tendências, menos de uma década mais tarde Armstrong e seu parceiro no Eagle, Buzz Aldrin, recolheram 21,5 quilos de material lunar a fim de trazer para a Terra, dentre outras experiências científicas realizadas nas quase 22 horas permanecidas no solo do nosso satélite natural.

Para a maioria, o próximo passo da humanidade já parecia claro e bem definido: o planeta Marte!

Nas conversas entre cidadãos dos mais distintos matizes ouvia-se que não demoraria “nem um pouco” para de novo milhões se mobilizarem para assistir a um novo show de competência extrema dos homens: a primeira caminhada sobre o solo enferrujado do planeta vermelho.

Pois é, hoje, meados de 2026, ou seja, 57 anos depois de Armstrong e Aldrin descreverem o que viram e sentiram sobre a camada fina de poeira da Lua, houve até uma certa comoção universal com o sucesso da missão Artemis II da Nasa, realizada, como já citei, entre os dias 1 e 11 de abril deste ano, 2026. Pasmem: e para um voo que apenas circundou a Lua!

A cápsula Orion saiu da Terra no foguete SLS com quatro astronautas e depois de uma órbita lunar a uma altura mínima de 100 quilômetros, incluindo o sobrevoo pelo misterioso lado oculto da Lua, apontou a nave para nosso planeta e iniciou a viagem de volta.

Parte dos 8 bilhões de habitantes da Terra, hoje, vibrou com o retorno das missões tripuladas à Lua, mesmo sem pousar. Você leu corretamente, à Lua. Não, não foram a Marte, como milhões acreditaram que atingiríamos em seguida às missões da Apollo para a Lua, entre 1969 e 1972.

Festa por algo já realizado muito antes

Como assim? Se em 58 anos (1903 a 1961) evoluímos de dominar o ar para voarmos com aviões a lançarmos astronautas para o espaço e, depois, em somente oito anos (de 1961 a 1969) avançamos do primeiro voo orbital na Terra a pousarmos tripulações na Lua, como explicar que 57 anos mais tarde (2026 a 1969) a humanidade se emociona com um “simples” sobrevoo do nosso satélite?

Isso seria notícia, geraria grande interesse, comoção, pouco mais de meio século atrás, como de fato aconteceu, mas não agora.

Os responsáveis pelas conquistas notáveis dos anos 60 e início dos 70 do século XX quanto a nos deslocarmos pelo espaço estavam tão entorpecidos com o sucesso daquela demonstração de avanço tecnológico sem precedentes que não se preocuparam em deixar claro que passos maiores, como levar uma tripulação a Marte, a expectativa geral, representa uma realidade bastante distinta. E distante.

Em português raso, o buraco agora é bem mais embaixo.

Muitos e brutais desafios pela frente

Enquanto a Lua se encontra a três ou quatro dias de viagem da Terra, por estar a menos de 400 mil quilômetros, o planeta Marte se encontra entre 55 e 400 milhões de quilômetros, depende do instante da sua órbita ao redor do Sol em relação à da Terra.

E enquanto em poucos dias é possível decolar do nosso planeta e pousar com relativa segurança na Lua, o deslocamento até Marte, dentre outros imensos desafios, demanda um período de nove meses viajando.

Repare que apenas esse dado, o tempo de viagem, já impõe dificuldades que não estão ainda completamente equacionadas pela comunidade científica e como enfrentá-las para tornar o projeto possível. Logo mais entraremos a fundo na questão.

E o problema não se resume a todas as complexas dificuldades de manter uma tripulação - necessariamente não pequena - dentro de uma nave, exposta a radiação solar e cósmica, além dos efeitos profundamente indesejáveis da microgravidade, para chegar a Marte.

Sabe quanto tempo a tripulação que superar todos os imensos desafios de permanecer nove meses em uma espaçonave e pousar com segurança – outro megaexame de dificuldade – tem de esperar no solo de Marte até ligar os motores do foguete para outros nove meses na viagem de volta?

Algo como 18 meses, cerca de 540 dias, por conta da necessidade de aguardar o alinhamento ideal das órbitas de Marte e da Terra para seguir pela trajetória de menor tempo de viagem. Essa janela de transferência ocorre a cada 26 meses.

Três anos fora de casa

Fez as contas? Nove meses viajando da Terra até Marte. Um ano e meio lá, sem ar, água e terreno favorável à produção agrícola, dentre outras providências básicas a serem tomadas, e mais nove meses no deslocamento de volta. Período total da Missão: cerca de 36 meses ou três anos!

Vamos percorrer juntos tudo o que a Nasa - ou a agência espacial que for – precisa fazer para tornar possível o envio de uma viagem tripulada a Marte?

Você compreenderá melhor por que o tema “O homem em Marte” tão propagado ultimamente não condiz com a realidade atual. Em resumo, há muito ainda por ser feito antes de pensarmos em mandar quatro, cinco, seis astronautas para o planeta vermelho. Provavelmente serão seis, diante de pluralidade de funções a serem executadas em Marte para a simples manutenção de vida humana.

Que um dia teremos uma tripulação de homens e mulheres por um ano e meio em Marte realizando toda sorte de pesquisa científica não há dúvida. O homem evoluiu de caçador-coletor a ser capaz de explorar o espaço porque é, intrinsicamente, curioso, investigador, o desconhecido o estimula, precisa entender como as coisas funcionam, o que o leva a descobertas científicas, invenções tecnológicas, para dizer o mínimo.

Nada a contestar, essa é, felizmente, a nossa natureza. Mas daí a afirmar que até o fim dos anos 2030 assistiremos ao pouso e veremos um grupo de seres humanos explorando Marte... Não há nenhum indício que será em tão pouco tempo. A seguir entenderá o porquê.

Mencionei que discorreríamos sobre os bárbaros desafios científicos, de engenharia e mesmo de investimento financeiro necessários para pensarmos em enviar uma nave tripulada ao planeta vermelho.

Você já viu que o tempo de viagem com a tecnologia de que dispomos hoje é tão grande que já nesse primeiro parâmetro de análise surgem importantes dúvidas sobre ser possível mandar o homem para lá e trazê-lo são e salvo de volta.

Agressões descomunais ao organismo

Os astronautas da Artemis II relatam as mudanças que sentiram em seus corpos depois de somente 11 dias viajando pelo espaço até a Lua.

Nasa, Roscosmos, ESA, CNSA, Jaxa, ISRO, dentre outras, desenvolvem estudos nessa área, por disporem de astronautas na Estação Espacial Internacional (ISS), na MIR, russa, e na Tiangong, chinesa, por extensos períodos de tempo.

O recordista é o russo Valeri Polyakov, na MIR, com 437 dias, seguido pelo americano Frank Rubio, na Estação Espacial Internacional, 371 dias.

O que o grupo médico constatou é alarmante. Por essa razão há em curso diferentes experimentos concebidos para atenuar os efeitos maléficos na saúde física e psicológica dos astronautas gerados pela longa permanência confinada em ambientes com microgravidade, expostos à radiação, isolamento, distância da Terra, dentre outros.

Por exemplo: redução da densidade óssea, de 1 a 1,5% por mês, redistribuição dos fluidos no cérebro, alterações da atividade cardíaca, dificuldade de orientação espacial, redução da acuidade visual, para uma abordagem mais genérica.

No espaço, o tempo não passa como na Terra. Os astronautas vivem ciclos não regulares de luz e escuridão, interferindo diretamente no ciclo circadiano, o nosso relógio biológico interno, responsável pela regulação de funções vitais como sono, vigília, temperatura corporal, digestão e produção de hormônios. O ciclo circadiano é sincronizado, principalmente, pela luz solar.

Outro desafio é a alimentação a bordo de uma espaçonave durante nove meses para seis astronautas. É preciso não somente fornecer energia, alimentos saudáveis, como prover os nutrientes necessários para combater os efeitos adversos do voo espacial.

E o que não dizer da difícil tarefa de manter a saúde mental dos astronautas a fim de garantir a segurança e o sucesso da missão?

Já imaginou viajar em um ambiente completamente hostil, com pouco espaço para se movimentar, com cinco outros tripulantes, sem gravidade, sem poder tomar banho de verdade, comer produtos frescos, vendo a Terra ficar cada vez mais distante e menor pela janela da nave até não passar de um pontinho azul, semelhante a uma estrela?

Pior: consciente de que só voltará a dispor de tudo o que sempre foi acostumado e seu organismo lhe cobra depois de algo como dois anos? Sem mencionar rever quem amamos?

Radiação do espaço pode ser letal

Outro imenso desafio das missões longas pelo espaço é a exposição de humanos à radiação de alta energia vinda do Sol e do universo profundo. Na Terra somos protegidos pelo campo magnético, gerado pelo núcleo metálico líquido em circulação no interior do planeta. Além disso, a atmosfera terrestre detém da mesma forma a maior parte dessa radiação.

Mas no espaço não há nem campo magnético nem atmosfera para proteger os astronautas. E nove meses expostos à radiação, durante o voo, pode simplesmente ser letal. A chegada a Marte não muda nada porque o planeta também não dispõe de proteção alguma, não há campo magnético e tampouco atmosfera protetiva. Marte os perdeu há bilhões de anos.

A radiação ionizante de alta energia pode romper moléculas de DNA e danificar tecidos biológicos, aumentando significativamente a chance de desenvolver câncer.

Os estudos com astronautas depois de longos períodos no espaço mostraram a possibilidade real de afetar o metabolismo das células do cérebro, dentre outras, resultando em problemas de memória, cognição e, claro, desempenho durante a missão.

Considere, por favor, que esses astronautas dos experimentos permaneceram nas estações espaciais, a cerca de 400 quilômetros de altura. Suas paredes têm certa proteção contra a radiação, por não ser tão complexo construí-la para permanecer relativamente próxima da superfície. A estação foi construída com o envio de vários voos.

Além disso, há nela alguma proteção natural por estar ainda parcialmente dentro do campo magnético da Terra. Seus tripulantes são conscientes e preparados para, diante pane severa nas instalações, se acomodar no módulo de emergência, reentrar na atmosfera terrestre para, pouco tempo depois, já estarem na superfície do planeta. Recurso inexistente em uma viagem a Marte. Têm de permanecer lá até a próxima janela de coincidência orbital entre os dois planetas, ou seja, 18 meses.

Mais susceptíveis a doenças

Outros efeitos registrados no corpo humano nas longas viagens espaciais: enfraquecimento do sistema imunológico associado à radiação e ao estresse do voo espacial. Os astronautas se tornam mais vulneráveis a desenvolver as mais diversas patologias. Sem nenhum hospital próximo por longo tempo.

A forma de reduzir ou impedir de os astronautas serem atingidos pela radiação durante a viagem é equipar a nave e seus trajes com verdadeiros escudos protetores. Não é uma garantia absoluta porque a radiação de alta energia – raios gama e raios X - vinda do espaço profundo, resultante de eventos cataclísmicos, como explosão de uma supernova, fusão de estrelas, ultrapassa qualquer barreira.

O problema de isolar a nave da radiação do espaço é a quantidade de matéria exigida no processo, elevando ainda mais a massa do foguete, o que, por sua vez, aumenta a já elevadíssima quantidade de combustível para a empreitada da missão.

E nem falamos em como fica a elementar necessidade de dispormos de enorme volume de combustível para os nove meses da viagem de retorno à Terra, caso essa seja a surrealista decisão dos planejadores. Chegaremos lá.

Você já ouviu falar na “equação do foguete”, enunciada pela primeira vez pelo russo Konstantin Tsiolkovski, em 1903?

Em resumo, é preciso entender que se o foguete necessita de mais combustível porque irá deslocar mais massa e como o combustível extra também tem massa, então é necessário mais combustível para o foguete que tem mais combustível para decolar com mais massa. E assim por diante. Atente como é complexa a questão de transportar elevadas quantidades de massa em um foguete.

Está vendo com uma coisa leva a outra e todas são de difícil solução? Mais: o que resolve uma questão pode ser um complicador para outra.

Quer dizer, então, que é impossível viabilizarmos uma missão tripulada a Marte? Claro que não. Para a humanidade nada é praticamente impossível. Apenas, no caso, profundamente desafiador encontrar o caminho, conciliar todas as necessidades ao mesmo tempo e dispor de recursos para garantir o projeto.

Até agora não falamos nesses recursos, dinheiro, para tudo isso. Espera terminar a lista das maiores dificuldades técnicas e biológicas para tornar possível o projeto de levar o homem a Marte para então falarmos do orçamento impensável exigido. Sim, é outro impedimento para uma missão até mesmo a longo prazo.

Pousar em Marte com sucesso: só 50% de chance

Sigamos. Na hipótese de tudo dar muito certo, a tripulação decolou com aquela massa absurdamente grande e conseguiu entrar na sutil atmosfera de Marte, apenas 1% da terrestre, e realizou o difícil pouso em segurança. Lá em cima talvez você se lembre, citei que pousar em Marte não é para amadores, mas somente para profissionais dos mais capacitados, em razão de sua atmosfera quase inexistente.

A redução da velocidade da nave deverá ser feita por retrofoguetes porque diferentemente da Terra não há atmosfera para auxiliar de forma decisiva, com vários estágios de paraquedas, a desaceleração de mais de 20 mil km/h na aproximação. Sim, isso demanda ainda mais combustível e, consequentemente, massa na hora de decolagem na Terra.

Para melhor compreensão da enorme dificuldade técnica – e riscos - de pousar uma nave ou mesmo uma sonda, em Marte, a agência europeia (ESA) perdeu, em 2016, a sonda Schiaparelli, e em 2003, a sonda Beagle 2. Se fossem naves tripuladas, os astronautas teriam enfrentado uma morte trágica.

Profissionais dos mais qualificados envolvidos com programas de sondas e rovers a Marte estimam em somente 50% as chances de pouso com sucesso na superfície. Dado por si só alarmante!

Mas nossa missão a Marte está sendo um sucesso total e... bingo! Superamos todos os sérios desafios e acabamos de pousar na superfície do planeta vermelho. Já sentimos de maneira mais efetiva a força gravitacional do planeta. Depois de nove meses em microgravidade no espaço, ainda que a de Marte seja somente 38% da terrestre, não está sendo nada fácil nos adaptarmos.

A gravidade entra em campo

Mesmo tendo praticado durante a viagem atividade física regular, duas horas diárias no mínimo, dentro da nave, como é difícil, agora, estar sob a gravidade de um astro. O corpo parece pesar uma tonelada, para retratar o mínimo.

A densidade média da Terra, planeta rochoso como Marte, é de 5.500 quilos por metro cúbico, a maior dentre todos os planetas do sistema solar. A de Marte é menor, 3.900 quilos por metro cúbico.

Outro dado para extrapolarmos as diferenças nas duas gravidades: o diâmetro da Terra é de 12.742 quilômetros. O de Marte, quase a metade, 6.779 quilômetros. Entendeu melhor por que a força gravitacional de Marte corresponde a cerca de 38% da terrestre?

A massa da Terra é bem maior e mais densa

Veja esse outro dado. Enquanto precisamos nos deslocar a impressionantes 11,2 quilômetros por segundo, ou 40.320 quilômetros por hora para escapar da força gravitacional da Terra, Marte é bem menos exigente em razão de sua menor massa: 5 quilômetros por segundo, ou 18.000 quilômetros por hora. Essa menor massa será uma ajuda na hora de decolarmos de volta à Terra.

Em termos práticos: um astronauta que na Terra pese 75 quilos, em Marte pesará perto de 29 quilos. Não passamos imunes por essa diferença, não fomos projetados para a nova realidade, agora no solo do planeta vermelho.

Há mais coisa envolvida, mas fiquemos por aqui. Será preciso um tempo para nos adaptarmos à nova dura força gravitacional. Imagine como será quando essa tripulação regressar à Terra depois de nove meses no espaço! Outro baque, mas ainda maior.

Aqui entra em cena outra variável para a qual não temos referência alguma: como o corpo humano irá se comportar depois de três anos em um ambiente completamente distinto daquele de sua origem. Temos alguma informação sobre períodos de tempo bem menores, apenas. Será uma descoberta para a equipe médica da missão. Outra: os esperados danos ao organismo são reversíveis? Não sabemos completamente.

Hora de abrir a escotilha para pisar na superfície

Atenção: não abra a porta da escotilha da espaçonave se não estiver muito bem equipado. A temperatura média é de 60 graus Celsius negativos, semelhante à mínima no local habitado mais frio na Terra no auge do inverno, Irkutsk, na Rússia. Mas no planeta vermelho a temperatura pode chegar facilmente a 180 graus negativos e rápido!

Lembra da distância média da Terra e de Marte em relação ao Sol? No nosso caso, 150 milhões de quilômetros. Já Marte, 228 milhões de quilômetros. Isso faz com que a superfície do planeta vermelho receba somente 44% da quantidade de luz solar que atinge a Terra.

Mais sério ainda é a composição da quase inexistente atmosfera marciana: o 1% de sua atmosfera em relação a da Terra é de gás carbônico, principalmente, o mesmo que expelimos na nossa expiração, portanto tóxico para nós. Certifique-se, duplamente, de que tudo está perfeito no traje antes de sair da espaçonave.

Se não tivermos um traje pressurizado, dentre outros atributos, nossos líquidos internos irão simplesmente “ferver” em segundos por causa da diferença de pressão para a sutil atmosfera de Marte. Seria uma morte horrível.

Mais: a mesma radiação que acompanhou a nave na viagem desde a Terra atua na superfície de Marte por não haver, como no espaço, a exemplo do já mencionado, campo magnético e atmosfera.

Tempestades fatais de poeira

Não há tempo a perder. Temos de agir rápido. Construir um abrigo capaz de proteger todos não apenas da radiação, mas de outro fenômeno relativamente comum em Marte: grandes tempestades do pó bem fino que cobre sua superfície, gerada por ventos de até 100 km/h.

São tão extensas que chegam a cobrir, nos casos extremos, um hemisfério inteiro do planeta! Mais: são capazes de se manter por, acredite, meses. Essa poeira marciana facilmente compromete os equipamentos necessários para a manutenção da vida.

Em 2018, o rover Opportunity encerrou suas atividades na superfície de Marte depois de uma tempestade de poeira ou areia cobrir o céu por longo período de tempo, impedindo os painéis solares de recarregarem as baterias. O mesmo aconteceu com a sonda InSight, em 2022.

Resolver tudo sozinhos

Os estudos iniciais apontavam a necessidade do envio de uma missão prévia a Marte, sem tripulantes, destinada a mandar as peças exigidas para a construção de abrigos e das plantas industriais. A Nasa, contudo, no seu planejamento mais recente informou não trabalhar mais com essa opção no projeto.

Por enquanto, os astronautas levarão tudo com eles. Também já deixou claro não ser possível programar uma missão de resgate dos astronautas. Tudo terá de ser resolvido em Marte. Ainda: que eles não contem com missões de suprimentos, como nas estações espaciais. No período de habitação em Marte a tripulação terá de produzir tudo lá mesmo.

Plantas industriais complexas e gigantescas

Mas não precisamos apenas de abrigos para viver em Marte. A missão tripulada terá de levar uma planta industrial desmontada para a produção de água a partir do gelo existente no subsolo marciano. Nesses equipamentos deve existir também uma planta industrial para obtermos oxigênio a partir do gás carbônico (CO2) da ultra-reduzida atmosfera, a fim de permitir aos astronautas poderem respirar.

Esse oxigênio pode também servir de combustível para o foguete na longa viagem de volta. Imagine a dimensão e complexidade da planta industrial para uma tarefa dessa monta! Como armazená-lo sob condições tão severas, como variação brutal de temperaturas extremas, 180 graus negativos, mais a radiação emitida pelo Sol e vindas do Universo mais profundo... desafios surreais.

É importante destacar que esses processos, o de obter oxigênio do gás carbônico, já foi realizado experimentalmente em Marte pelo rover Perseverance, presente no solo do planeta desde fevereiro de 2021.

É bom citar esse exemplo para expor a magnitude do desafio de produzir oxigênio em Marte. O projeto Moxie do rover Perseverance obteve 8,4 litros por hora. O ser humano consome, em repouso, algo entre 12 e 18 litros por hora. E, como venho dizendo, são seis astronautas que deverão fazer parte da missão.

Repare a extensão do desafio de levar tudo aqui da Terra lá para Marte a fim de obter água a partir do gelo existente – porém não na superfície, outro problema - e oxigênio utilizando-se de gás carbônico. Para não mencionar o volume de oxigênio exigido para encher os tanques do foguete a fim de poder regressar à Terra!

Outra coisa: tudo tem de funcionar à perfeição. Não há ninguém lá para ajudar no reparo desses equipamentos essenciais à preservação da vida. O projeto tem de prever redundância em todos os sistemas e os astronautas serem especialistas em reparar a planta industrial que os fará manterem-se vivos em Marte.

Solo impróprio para cultivar alimentos

Não acabou, ainda, amigo. Precisamos produzir alimentos para a tropa e por muito tempo: o ano e meio que os astronautas permanecerão no planeta vermelho e nos cerca de nove meses na viagem de volta à Terra.

De novo entra em cena a extensão do necessário para tudo o que estamos mencionando. Com um sério agravante: no solo de Marte há uma porcentagem de percloratos. São substâncias altamente oxidantes, tóxicas para o ser humano. É possível extraí-los e tornar o solo fértil, há experiências nesse sentido realizadas pela Nasa. Não, porém, na escala exigida por uma missão real a Marte.

Energia atômica

Mas aí vamos entrar em outro tópico essencial para tudo o que falamos até agora: energia!

De onde virá a extraordinária quantidade de energia robusta, confiável e duradoura para as complexas e extensas plantas industriais a serem construídas funcionarem? Não é pouca, deu para ver, certo?

Adianto uma má notícia: painéis solares não representam a melhor solução por causa do já explicado, as tempestades de areia capazes de cobrir os painéis de captação de luz do Sol para gerar energia elétrica.

A Nasa estuda o envio de geradores de energia de fissão nuclear, como garantia, associada à geradores de energia solar. São geradores termoelétricos de radioisótopos. Suas dimensões não são as menores, sabemos, e os cuidados com equipamentos nucleares devem obedecer a normas de segurança das mais restritas, não fáceis de serem observadas em um ambiente tão inóspito como a superfície de Marte.

Para não mencionar que estará ao lado dos tripulantes na longa viagem de nove meses até o planeta vermelho. E dá-lhe massa extra para isolar os astronautas dos efeitos da radiação dos geradores nucleares.

Na conferência de imprensa de 26 de maio, o administrador da Nasa informou que será esse tipo de gerador atômico que vai ser enviado à Lua para a manutenção da base tripulada.

Está contando comigo as inúmeras exigências para nos mantermos no básico?

Peso de decolagem fora da realidade

Número 1: a quantidade de massa impensavelmente elevada a ser embarcada no foguete por conta de a tripulação levar consigo todo o imprescindível para construir as plantas industriais em Marte.

Na Apollo 11, que primeiro pousou na Lua, em 1969, o seu foguete, Saturno V, pesava 3 mil toneladas no momento do lançamento. Isso permitiu que o módulo lunar, com suas 15 toneladas, pousasse no satélite da Terra.

Vamos para o projeto Marte. Considerando-se a complexidade e extensão de tudo o que os seis astronautas vão precisar para manterem-se vivos por lá, o peso de todo material que deverá desembarcar com eles é de algo como 80 toneladas, peso na Terra, segundo cálculos iniciais otimistas da Nasa e fruto de elevado investimento no projeto e construção dos equipamentos, privilegiando os materiais mais leves possíveis.

Há uma expectativa na comunidade científica de a realidade ser bem outra, ou seja, os equipamentos todos pesariam, no mínimo, duas vezes o valor estimado originalmente, elevando sobremaneira o desafio de como decolar com uma carga dessa magnitude com os foguetes atuais, mesmo o último da Nasa, o Space Launch Sistem (SLS) utilizado no projeto Artemis.

A Nasa trabalha no desenvolvimento de novas tecnologias, como motores iônicos, por há muito ter compreendido que a receita de queima de combustível químico, hidrogênio e oxigênio, não servir para missões como a planejada para levar seis astronautas até Marte.

Na verdade os motores iônicos já existem, mas em razão da sua baixa força de empuxo são usados exclusivamente no vácuo do espaço, para manter satélites em órbita ou sondas que exploram o sistema solar. Na escala necessária a Marte, tudo é ainda incipiente, há muito o que fazer e ser testado.

Fabricar lá os combustíveis para a volta

Se nenhuma tecnologia nova de propulsão para foguetes for desenvolvida a contento para a missão a Marte e a saída for utilizar o que hoje existe, será preciso pensar no que fazer para a tripulação dispor de combustível em Marte para a viagem de volta à Terra, como já mencionei.

Construir lá a planta industrial para a obtenção do hidrogênio, a partir do metano (CH4) da atmosfera e da água do subsolo, e oxigênio do gás carbônico (CO2), também da atmosfera. Fácil propor o que fazer, barbaramente complexo realizar.

E por falar no sucessor do atual foguete, o SLS, por outro capaz de gerar empuxo bem maior, como seria? Ele acompanharia a viagem da Terra até Marte, acoplado à nave onde estão os astronautas a fim de reabastecido trazê-los de volta? Qual a mágica para superar a dramática entrada na atmosfera rarefeita de Marte e pousar um foguete de cerca de 100 metros de altura com segurança?

Dá para imaginar a insanidade do escudo protetor para não se desfazer com a temperatura atingida, apesar da atmosfera ser rarefeita?

O Saturno V, da Apollo 11, com seus 110 metros de altura, decolou da Terra com um peso total de 3 mil toneladas, conforme citei. E a Artemis 2, com o foguete SLS, de 98 metros, pesava 2.600 toneladas.

Em termos de empuxo, por ser o produto de uma era bem mais avançada da indústria aeroespacial, cerca de 50 anos depois do Saturno V, o SLS tem um pouco mais de empuxo, entenda como força bruta para sair do chão, que o Saturno V: 4.000 toneladas-força para o SLS e 3.400 para o seu precursor.

Mas ainda assim bem distante do empuxo exigido para sair da órbita terrestre com algo como prováveis 150 toneladas.

Vamos em frente no nosso mundo ideal: já resolvemos todos os radicais problemas do voo longo. E quando lá também os desafios de obtermos água, oxigênio, terra cultivável, dispormos de um habitat hermético, protegido da radiação, com temperatura controlada, fonte de muita energia de origem atômica funcionando com perfeição, assim como nosso veículo de locomoção.

Atraso nas comunicações

Também estamos superando outro superexame enfrentado a cada instante desde que nos distanciamos da Terra: o intervalo de tempo na comunicação entre o controle do voo, na Nasa, e nós dentro da nave. Ou ao contrário, o tempo entre nós os chamarmos e eles nos ouvirem.

Como mencionado, Marte é longe para a nossa realidade. Dependendo de onde estivermos em relação à Terra, o intervalo de tempo entre um chamar o outro e a mensagem chegar irá varia de 4 a 24 minutos!

Já imaginou o comandante da missão detectar uma pane em algum sistema no momento que antecede a entrada da nave na atmosfera de Marte, os 7 minutos de maior risco da viagem, e dizer no rádio: “Houston, we have a problem”?

O controle de voo irá ouvi cerca de 5 minutos depois, considerando-se a localização dos dois planetas quando a viagem estiver terminando, relativamente próximos. Pensar numa resposta e então enviá-la ao comandante da espaçonave demandará, portanto, outros 5 minutos. Se o controle da missão tiver pronta a resposta do chamado, o comandante terá sua informação 10 minutos depois de solicitá-la! Os cerca de cinco minutos para a mensagem chegar em Houston e os cinco minutos para a resposta atingir Marte. Prático, seguro, não acham?

As ondas de rádio, como toda radiação eletromagnética, se deslocam na velocidade da luz, cerca de 300 mil quilômetros por segundo. E Marte, como já mencionei, estará entre 55 e 400 milhões de quilômetros da Terra, daí o retardo na comunicação entre quem está em um planeta e no outro.

Isso quer dizer que não é possível contar com orientação do controle de voo, dispor de informações imediatas. E a cada dia que a missão permanecer na superfície essa diferença de tempo irá aumentar em razão de a Terra e Marte se distanciarem em suas órbitas solares, até atingir o ponto extremo, quando a comunicação, como expliquei, se dará com um atraso de 24 minutos.

Boa notícia, o dia tem também 24 horas

“Nossa, o piso é mesmo avermelhado e a cor predominante do céu é amarela”! Alguém da tripulação dirá, confirmando o previsto nos treinamentos. Estão todos com sorte porque incrivelmente Marte dá uma volta ao redor de seu próprio eixo em 24 horas e 37 minutos, bem semelhante ao número de horas de um dia na Terra, 24 horas.

Os demais planetas têm rotação bem distinta: um dia em Vênus corresponde a 243 dias terrestres, rotação lentíssima, e Júpiter, 10 horas, apenas, muito veloz. O dia marciano ter cerca de 24 horas é, finalmente, um fator facilitador para os astronautas.

Vão ver os astros no céu noturno sem a variação de luz, trêmula, piscante, como ocorre na Terra por em Marte, como já explicado, quase não haver atmosfera. E chamará a atenção um pontinho azulado em destaque.

Isso mesmo, foi de lá que partiram e depois de superar alguns dos maiores desafios que um ser humano pode se submeter, a ficha cairá para cada um dos que estão, naquele primeiro instante, a cerca de 60 milhões de quilômetros da Terra!

Compreenderão rápido: vão ter de permanecer naquele ambiente inóspito ao extremo, trabalhando muito durante quase um ano e meio para manterem-se vivos, antes de entrar em um foguete e voltar para casa, torcendo para tudo dar absolutamente certo.

Tudo tende a se desorganizar

É prudente mencionar aqui uma grandeza termodinâmica não compreendida por muita gente: a entropia. Tenha a certeza absoluta de que a tripulação lutará contra essa lei inexorável da Física o tempo todo.

Explico: em termos bem gerais, é a tendência de as coisas se moverem do organizado para o desorganizado. Entropia mede o grau de desordem ou aleatoriedade de um sistema e a dispersão da sua energia. Na Física, a entropia rege a segunda lei da Termodinâmica. Significa que a energia tende naturalmente a se espalhar e o sistema tende ao caos ou ao equilíbrio térmico.

Os seis astronautas terão de ter um elevado grau de dedicação e recursos capazes de manter tudo funcionando. Nesse contexto, a entropia trabalha em oposição a eles.

Em um plano mais filosófico, podemos afirmar que nossa tripulação representa o grupo de seres humanos mais livres dentre todos que passaram pela Terra, ao estarem vivendo experiências em outro planeta, mas são também os maiores prisioneiros dessa liberdade.

Vida confinada

A Nasa realizou entre junho de 2023 e julho de 2024 uma experiência com quatro voluntários, selecionados entre 10 mil candidatos, chamado Chapea. Eles permaneceram confinados 370 dias, praticamente um ano, em completo isolamento, no Centro de Treinamento Johnson, da Nasa, em Houston, no Texas.

Dentre o que era possível simular a vivência do grupo no solo marciano foi feito, até mesmo com o atraso nas comunicações com a coordenação do experimento.

Um dos objetivos era estudar como o grupo se comportava nessas condições. É sabido que as relações humanas se desgastam tendo de compartilhar tudo, em pouco espaço, por tanto tempo e em condições extremas, onde qualquer coisa que der errado pode levá-los rapidamente à morte.

O conhecimento adquirido irá orientar a equipe que vai trabalhar na preparação da tripulação que um dia viajará a Marte.

Quem paga a conta mais que bilionária

Deixei para o fim o que talvez seja o mais relevante para justificar a ideia de que não há como imaginarmos uma missão tripulada a curto e médio prazo para o planeta vermelho: a questão financeira.

Mesmo o final da próxima década, 2039, daqui a 13 anos, como planeja a Nasa, é um espaço de tempo exíguo demais para um desafio dessa natureza.

Sei que parece presunção confrontar o planejado pela agência americana, mas além da minha percepção baseada no que a história e o presente nos mostram, esse é da mesma forma o entendimento de TODO cidadão com quem troco ideias regularmente, no exterior, a maioria com formação acadêmica também. Falo “exterior” por ter vivido fora do Brasil praticamente por três décadas e ter sido lá que desenvolvi meu núcleo maior de relacionamento.

Sim, conhecemos as ciências, a Física, a Bioquímica, a Biologia de um voo com astronautas para Marte, temos uma noção relativamente precisa da engenharia envolvida, a tecnologia necessária e estamos confiantes de poder corresponder, ainda que seja possível sermos surpreendidos por algo não antecipado. É uma empreitada nova, não se esqueça.

O que nos falta, então? Bem, primeiro ter um programa específico destinado a levar o homem a Marte. Há muita coisa sendo feita com esse objetivo, mas tudo ainda disperso. Não chegamos ainda à definição de, por exemplo, um programa como foi o Apollo e agora Artemis.

E falta o mais importante: o dinheiro necessário para tudo acontecer efetivamente. Quanto? Há um consenso de que uma vez tudo bem definido, com metas a serem atingidas, como são todos os programas espaciais, não menos de US$ 500 bilhões! Sim, leu bem, 500 bilhões de dólares.

O programa Artemis, de 2012 a 2028, quando com a Artemis IV o homem voltará a pisar na Lua, ultrapassará US$ 100 bilhões, segundo a Nasa.

É bastante racional acreditar que uma missão a Marte, com o necessário projeto e desenvolvimento dos equipamentos específicos, os estágios todos de lançamentos experimentais prévios, treinamento das tripulações, custe pelo menos cinco vezes mais, no mínimo. Li textos, como um do brilhante astrofísico e comunicador Neil deGrace Tyson, que reforçam essa ideia.

Valores bem fora do orçamento

O orçamento da Nasa este ano é de US$ 24,4 bilhões para todos os seus programas, novos e em curso. Deu para ver que para o projeto da missão tripulada a Marte a Nasa precisará, só para isso, 20 vezes o seu orçamento anual (24,4 bilhões de dólares x 20= 488 bilhões)?

Estamos diante de necessidade sem precedentes na história das conquistas espaciais. O governo americano não deverá elevar sobremaneira a porcentagem do destinado a Nasa de seu orçamento anual. Não vivemos uma guerra fria como no começo dos anos 60 com a União Soviética e que justificou o extraordinário Programa Apollo não ter limite de investimento.

Há concorrência, mas pela Lua

Hoje existe, sim, concorrência por uma base na Lua com a China. É por isso que a Nasa focalizou seus esforços na retomada do Programa Artemis, fazer frente ao que a China está desenvolvendo para a Lua.

Só que se a Nasa está longe de poder pensar com seriedade em enviar uma missão com astronautas a Marte, as agências espaciais da China, da Rússia e a ESA europeia se encontram ainda mais distantes, como escrevi lá no começo. Infelizmente não há concorrência.

A Nasa trabalha junto da ESA e das agências privadas Space X, Blue Origen, Axiom Space no desenvolvimento dos vários e complexos aspectos de uma empreitada para se estabelecer na Lua. Aproveita para desenvolver tecnologia para, no futuro, estabelecer o cronograma de uma missão tripulada a Marte.

A nave Orion da Artemis, por exemplo, tem um nível de proteção à radiação bem maior da usada no programa Apollo, mas ainda insuficiente para garantir a seis tripulantes um voo seguro até Marte. Suas dimensões da mesma forma são inadequadas, a Nasa sabe disso.

A Orion foi concebida segundo o conceito Multi Porpose Crew Vehicule (MPCV), uso múltiplo, exatamente para esse fim, servir para levar o homem de volta à Lua e permitir compreender melhor as necessidades no planejamento de uma missão a Marte.

Tudo o que está sendo feito em preparação para a viagem mais fantástica da história da humanidade, até um outro planeta, tem agregado precioso conhecimento ao desejo ainda em fase embrionária. Existe a intenção, não o projeto com etapas bem definidas.

Opinião

Amigos, penso ter deixado clara a extensão dos megadesafios a serem vencidos até que, no futuro, possamos nos reunir diante de um aparelho de TV a fim de assistir ao primeiro ser humano abrir a escotilha da nave para dar os nossos primeiros passos em outro planeta, como fizemos na Lua há 57 anos.

Há o problema financeiro quase sem solução para dar a efetiva largada na concepção do programa, com metas a serem alcançadas ao longo dos anos, a necessidade imperiosa de desenvolvermos outro modelo de propulsão, novas tecnologias.

Não é possível, no meu entendimento, pensarmos em mandar uma tripulação a Marte saindo da Terra com foguetes movidos pela queima de combustível químico, oxigênio e hidrogênio líquido, no estágio central, e combustível sólido nos laterais, formado por perclorato de amônia e pó de alumínio.

Não consigo imaginar, também, a quantidade desses propelentes para impulsionar um foguete que venha ainda ser projetado e testado para superar a velocidade de escape da Terra e seguir viagem a Marte, tendo em vista a massa embarcada total quase irrealista. E como trazer boa parte desse “pacote” de volta.

As dimensões do novo foguete, com as plantas industriais desmontadas, destinadas a tornar a vida humana possível no planeta vermelho, estão na casa das 150 mil toneladas, apesar de acreditar ser mais, dada a multiplicidade de ações de grande porte necessárias para um grupo de humanos sobreviver por lá.

Lembra do peso de decolagem da Artemis II agora em abril, citado no texto, para um voo de 11 dias, apenas orbital, sem pouso na Lua e sem equipamentos a bordo para uso na superfície? Foram 2.600 toneladas.

Projete tudo o que será preciso em Marte para seis tripulantes durante três anos. Repito: três anos!

Estamos diante de algo que transcende o mundo da engenharia e entra nas limitações que a Física nos impõe. A equação do foguete de Tsiolkovski não é apenas teoria, ela existe, chegamos a números com ela.

E, como questionei no texto, como produzir milhares de toneladas de combustível químico em Marte, armazená-lo, mantê-lo em segurança, organizar uma decolagem para voltar a Terra? Uma ficção científica bem produzida não aceitaria sequer levar adiante um roteiro dessa natureza, dada a distância da realidade. Seria desrespeitoso com os interessados.

Bem, em resumo, amigos, no título você viu que escrevo que chegaremos a Marte “depois de 2050”. Mas não é 2051, senão várias décadas mais para a frente, por tudo que expliquei nesse quase tratado sobre o tema, tendo ciência de que fui bem genérico. Obrigado. Abraços.

rocket ship launching during daytime
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buzz aldrin walking on the moon
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