Minhas apaixonantes amigas seriemas

Durante cerca de quatro meses compartilhei uma experiência emocionante com um amável casal de seriemas, na área de Mata Atlântica da Serra da Cantareira. Conheça, em detalhes, como nos conhecemos, desenvolvemos grande confiança e nos tornamos amigos.

MINHAS HISTÓRIAS

3/2/202614 min read

Olá amigos.

Faz já alguns meses. Subi a rampa de acesso e saída da minha casa e me surpreendi com uma seriema ao atingir a rua dentro do condomínio onde resido, área bastante arborizada na Serra da Cantareira. Encantado, parei o carro. Abri delicadamente a porta, saí parcialmente e vi que, na realidade, havia duas seriemas. A espécie forma casais monogâmicos. Os contatos com representantes da natureza selvagem me elevam.

Logo compreendi que minha presença não as assustou, ao menos demais. Me acomodei novamente no veículo e permaneci com um sorriso no rosto por bom período de tempo enquanto dirigia para o meu compromisso, em São Paulo. Minha esperança era reencontrá-las nos dias seguintes, como faço por vezes com outros animais silvestres da serra, fregueses contumazes da área de meu rancho.

Antes de chegar na comovente história de relacionamento que desenvolvi com o casal de seriemas, considero importante contextualizá-la, descrever o cenário onde tudo se processou.

Todo dia, entre 7 e 7h30, disponibilizo em um platô de concreto ao lado da grama existente em frente à minha residência quirela de milho e quirela de arroz para os pássaros. São cerca de meio quilo de cada. Além disso, espalho de forma organizada o filé-mignon das sementes, o painço, preferido da maioria.

Esses alimentos se destinam aos pássaros que comem sementes, grãos, como canário-da-terra, hoje bem abundantes, pombas-asa-branca, juritis, rolinhas, tico-ticos, chupins, pica-pau do campo (sim, eles também apreciam quirela de arroz), por vezes gralhas, dentre outros. A população é grande. Enquanto todos comem, eu também me alimento ao vê-los, reservadamente.

De vez em quando sai uns quebra-paus feios. Claramente aves de maior porte já pousam de asas abertas, para expor suas generosas dimensões. “Olha como eu sou grande”, desejam dizer. Na maioria das ocasiões, funciona. Muitos deixam o local. A lei da sobrevivência é mandatória na natureza. Faz absolutamente parte do processo.

Pensando em todo mundo

Ao lado do platô das quirelas, mantenho sobre a grama uma tábua de madeira onde também toda manhã coloco banana, mamão e laranja. Quando tenho, disponibilizo outras frutas também, como abacate e manga. Seus consumidores são os vários sanhaços, cinza, coqueiro e amarelo, sabiás-do-campo, sabiás-laranjeira, sabiás-poca, bem-te-vis, saí-azul, as várias saíras, como a sete-cores, dentre outros menos comuns.

Também troco a água, toda manhã, dos bebedouros, acomodados sobre a grama, ao lado do comedouro. Uso prato plástico de grandes vasos. Eles servem para matar a sede depois de comer, procedimento comum entre as aves, e como piscina. Quase a todo instante você vê um ou mais pássaros tomando banho nesses bebedouros, com seus cerca de 60 cm de diâmetro e 6 centímetros de profundidade. Por vezes há disputa pelo espaço.







No dia seguinte ao ver o casal de seriemas pela primeira vez na rua onde resido, qual não foi a minha surpresa ao abrir a porta-balcão de meu quarto, de manhã bem cedo, acessar o terraço e vê-lo, na parte de baixo, ciscando o gramado em frente a casa.

Desci para a rotina matinal, abrir portas e janelas para o bem-estar das muitas plantas mantidas na parte interna, e alimentar os pássaros. Saí para a área externa com os pequenos baldes com as quirelas de milho, arroz, painço e as frutas. Ao me verem, as duas seriemas correram para o outro lado do gramado. E permaneceram ciscando a cerca de 10 metros de mim. Pareciam tranquilas.

Eu fiz o que tinha de fazer, observando-as, mas sem olhar diretamente para as duas. Ao longo do dia, vi que se ausentavam por horas, mas por volta das 15 horas lá estavam elas, no meu gramado. Entendi que durante esse período distante buscavam alimento em áreas de mata que circundam o condomínio. Mais para a frente narrarei uma cena presenciada.


Todos têm o mesmo direito

Pensei comigo, por que não oferecer a elas algo também para comer? Por que o privilégio das outras aves? Fui para a cozinha, cortei um peito de frango cru em pequenos pedaços - originalmente seria parte do meu almoço – e lancei os cubinhos na direção das duas seriemas.

O movimento com o braço assustou as duas, a ponto de voarem para uma árvore próxima. Têm elevada envergadura, por serem aves grandes, com até 90 cm de comprimento, do bico à ponta da cauda. Seu voo impressiona. Majestoso. Entendi que para lhes prover o alimento teria de ser mais discreto.

O fato é que mesmo eu permanecendo no gramado, depois de alguns instantes as duas voltaram e começaram a comer os cubinhos de peito de frango. Eu me encontrava a algo como oito metros delas. Segui na política de conviver naturalmente com o casal de seriemas, ou seja, desenvolver minhas atividades, como organizar melhor as frutas no comedouro, sem olhar diretamente para ambas.

Mantive essa rotina de prover alimento para todos da mesma maneira por vários dias. Ficou evidente que as seriemas não me enxergavam mais como um potencial predador. Eu podia me movimentar pelo gramado, passar bem próximo de ambas, tudo com a maior naturalidade: espécies distintas, não concorrentes, deslocando-nos em harmonia no mesmo meio ambiente. Maravilhoso!

Descobrir o grau de confiança

Num dos dias, saí cedo para a distribuição matinal e depois de espalhar as quirelas e as frutas, entrei em casa, apanhei o pote com os cubos de peito de frango e sentei no degrau da sala, separada da grama por uma porta de correr de vidro. Lancei os pedaços de frango, sem gestos bruscos com os braços, de forma a que caíssem perto de mim, entre um e dois metros. Desejava saber qual o grau de confiança que o casal de seriemas, àquela altura, tinha por mim.

O dimorfismo sexual na espécie é quase inexistente. Você distingue o macho da fêmea, como regra, pelo tamanho. O macho é um pouco maior, atinge até 2 quilos. A fêmea, cerca de 1,5. A diferenciação é também pelo comportamento. A fêmea, de modo bem geral, é mais desconfiada, se aproxima menos.

Para minha surpresa e alegria, as duas cautelosamente apanhavam os pedaços de frango bem próximos de mim. Como eram porções pequenas, não precisavam batê-las com o bico no solo para diminuí-las. Aprendi ao ver como se alimentavam.

Passei a lançá-los, nos dias seguintes, bem do meu lado, coisa de meio metro. As duas aves se aproximavam, demonstrando certa hesitação, em especial a fêmea, e com uma rápida bicada pegavam a carne.

Durante o dia, quando as via, já dispunha da prerrogativa de literalmente ser aceito pelo casal, em nenhum momento minha presença, mesmo do seu lado, gerava comportamentos de proteção ou fuga. A sensação de interação, compartilhamento, respeito mútuo, equilíbrio com a natureza é deliciosa.

Forte emoção, no grande avanço

Num belo dia, em vez de lançar os pedacinhos de peito de frango, estendi o braço, segurando o alimento na ponta dos dedos, quando estavam perto de mim. E o que aconteceu? O macho aos poucos se aproximou, dava a entender que viria pegar o cubinho da minha mão, depois desistia, eu não mudei a posição do braço, do corpo, não olhava direto para os seus olhos e... bingo!

Só que o danado me feriu. As seriemas têm um bico levemente curvado, muito forte, e pontiagudo. É a arma de caça junto das patas, com seus movimentos vigorosos. Fazem parte da sua dieta pequenos roedores, lagartos, serpentes, aves, bem como um pouco de vegetais, pois as detectei comendo a quirela de milho também. Em resumo são onívoras, como nós.

A bicada que levei no dedo foi tão forte que chegou a tirar sangue do meu indicador da mão direita. Estanquei o pouco sangue que saía com o polegar, pressionando-o, e estendi o braço esquerdo com o pedaço de peito de frango agora bem na ponta dos dedos. O macho veio, apanhou o alimento, mas sem encostar em mim.

E a fêmea, cara? Bem, ela não retirava os cubinhos na minha mão, por mais que eu tentasse fazê-la acreditar que não havia risco, com meu comportamento natural em tudo. Mas atenção: eu deixava o alimento do meu lado, a centímetros do calçado, e ela não se importava de abaixar, expor a parte de trás da cabeça, a nuca, para mim, e seguir comendo ali mesmo, totalmente exposta a um eventual ataque que eu, fosse um predador, pudesse desferir.

Esse é um sinal de máxima confiança em você, talvez mais do que vir e retirar o pedaço na sua mão, em razão da vulnerabilidade que o animal fica ao se abaixar, deixar de te ver, estando bem do seu lado. Não preciso dizer que aquela reação da fêmea me elevou às alturas, prazer máximo.

Descobri como me proteger das bicadas do macho: cortar o peito de frango em tiras. Eu segurava numa ponta e ele, no meu entendimento também como parte do aprendizado, abaixava o pescoço, virava a cabeça e apanhava a tira de carne por baixo, no lado oposto onde se encontravam meu indicador e o polegar segurando-a.

Lutas ferozes na minha frente

Como a fêmea não pegava o alimento na minha mão e eu deixava do meu lado, o macho por vezes se lançava para chegar antes da fêmea e comer ele aquele pedaço de frango. Pois ela, irada, partia para cima dele. Tudo a dois metros de mim, apenas. Cena impressionante.

Consegue imaginar duas aves com cerca de 1,40 metro de envergadura se digladiando bem na sua frente? Eu não me mexia, apesar da movimentação toda e até leves vocalizações produzidas por ambas. Apenas torcia para não virem parar em cima de mim.

Respeito básico

Observação importante: tenho certa formação acadêmica na área biológica também, além do jornalismo. Sei que não devemos alimentar animais silvestres, é uma interferência no andamento da natureza. Mas como forma de reduzir minhas ações, eu pesava 200 gramas de peito de frango e era esse o total que distribuía ao casal de seriemas, bem atento a que cada uma recebesse cerca de 100 gramas, controlado através da forma como eu as disponibilizava.

As aves têm um metabolismo bem mais acelerado que o nosso, mamíferos, primatas superiores. No caso da seriema, estamos falando de 100 gramas para um organismo de 2 quilos no caso do macho, ou 5% da massa corporal. E de 6,6% no da fêmea. Representam bem menos do que necessitam por dia para ter uma vida sadia.

Em outras palavras, a quantia da minha ração os obrigava a manter todos os seus instintos de sobrevivência ativos. Não era possível manterem-se vivas acomodadas com o que eu lhes provia.

Ao menos duas vezes tive a prova de que estavam caçando, por o macho voltar para casa, no período da tarde, com pequenos pelos presos ao bico. E o estado de saúde de ambas, sempre bastante dispostas, cores das penas, da pele, do bico, atestava para mim que aquele tempo em que não permaneciam na área da minha propriedade estava sendo usado para complementar a sua dieta.

Vocês precisavam ver a cara de ambas quando eu lhes mostrava o pote onde colocava as tiras de peito de frango vazio e ouviam “acabou”! Claramente no começo não entendiam: “Como assim, agora que começamos a comer algo tão gostoso já acabou?” As duas não saíam do meu lado. Até que com o tempo compreenderam que era aquilo que eu tinha para oferecer e pronto.

Ok, posso até entender, tudo isso não me isenta de não seguir a orientação de não acostumar animais silvestres com a presença de humanos, muito menos como responsáveis por lhes fornecer alimentos.

Pago o preço! Estamos falando de um casal dentre uma população generosa de seriemas que vive no Parque Estadual do Juquery, localizado no horizonte Norte de onde resido. Nas fotos que uso para ilustrar nossa conversa, é toda aquela área de mata e campo que vemos em frente à montanha onde se encontra o condomínio que resido.

Mais que um simples provedor

Tem mais: se elas alimentavam o meu espírito com essa relação de proximidade, acredito que eu, independente de ser visto como um provedor de comida, também de alguma forma lhes oferecia algo. Algo um pouco mais profundo, sem desejar ser místico.

Afirmo isso porque no fim de tarde, em geral depois de terem na natureza encontrado o quinhão que faltava da dose diária de calorias, pareciam sentir prazer em permanecer do meu lado, na grama, bem próximos. Não queriam mais nada, estavam satisfeitas. Na minha interpretação, sem presunção, por favor, aquilo também lhes era caro, afetivo.

Diante de amizade tão evoluída, procurei saber mais sobre a espécie seriema. O nome vem do tupi, de çariama, ou çaria, que quer dizer crista, e am, erguida.

Olha só que legal e surpreendente. Como eu sou disciplinado com o horário da comida para os pássaros, ao redor das 7 horas toda manhã, pouco antes desse horário seriemas macho e fêmea se posicionavam em frente à porta de vidro da sala onde há o degrau que eu sentava para lhes dar as tiras de peito de frango.

“Acorda, cidadão”

Você não vai acreditar. Sabe o que faziam? Batiam o bico no vidro com tal violência que não sei até agora como não quebrou. Do meu quarto, no andar de cima, eu ouvia as pancadas no vidro da porta da sala no andar de baixo. E era bem alto! É o que você está pensando, com absoluta certeza: estavam me chamando. Se falassem, seria mais ou menos assim: “levanta, cidadão, hora de alimentar a tropa!”



Eu gritava, “já vou, já vou...” Podia regular minha vida com o relógio biológico do casal de seriemas. Cheguei a controlar a faixa do horário em que davam a largada para a pancadaria no vidro: entre 6h50 e 7h10, sempre nesse intervalo de hora.

Nessa fase da relação, eu já podia olhar diretamente nos olhos de macho e fêmea, bem próximos de mim, em especial no momento de apanharem as tiras de carne de frango. Recordando, no caso do macho, na mão, e da fêmea, do meu lado.

Sim, falava com elas, bem baixo, mas não em demasia. Coisa do tipo como foi a caça ontem, estão apreciando viver fora do Parque do Juquery, neste ambiente de mais árvores e menos campos do que estão acostumados? Acredito que reconheciam a minha voz, embora não tivessem tido, enquanto na minha propriedade, experiência com outra pessoa. Nomes? Não lhes atribuí.

Adotei um assobio para que me identificassem à distância. Era só eu assobiar como estavam acostumadas ao ouvir para saber que eu me encontrava por perto. E logo se aproximavam. Não necessariamente somente para comer. No vídeo aqui disponibilizado há imagens com som dessa experiência.

Se passei a mão nelas? Não. Tampouco tentei o toque. Nossa transferência de energia se dava sem contato. Mas da mesma forma bastante eficiente.

Hora sagrada da reprodução

Algo aí como uns dois meses depois dessa convivência enriquecedora, as duas seriemas passaram a recolher galhos de árvore. Galhos grandes a ponto de me chamar a atenção. Eu via macho e fêmea trabalhando ativamente todos os dias. Discretamente segui seus voos curtos, característico da espécie, a fim de descobrir onde construíam o ninho.

Como é enorme e não costumam fazê-lo nas partes mais altas das árvores, não foi difícil descobrir o local. Escolheram um pinheiro, cuja raiz estava no terreno do meu vizinho Oeste, o Mauricio. Com meu binóculo Steiner Safari alemão – uma conquista para os amantes da natureza -, me divertia ao acompanhar a obra de engenharia do casal.

Percebi uma diferença no comportamento da fêmea a partir desse momento. Tornou-se mais esquiva, distante, já não vinha comer as tiras de frango do meu lado. Tinha de arremessá-las um pouco mais longe. Mudou, claramente seus hormônios a conduziam para uma realidade um pouco distinta. O macho não se alterou, seguia a mesma rotina de proximidade comigo.

Vocalização, um show à parte

Se há algo na natureza que desperta a atenção em quem quer que seja, mesmo os menos sensíveis, é a vocalização das seriemas. É muito característica. Som significativamente elevado e longo, expressado em dueto, macho e fêmea.

O recado para os demais casais ou só espécimes isoladas da espécie é repassado de maneira insofismável: esse território é nosso, dentre outras mensagens embutidas no canto. Assista ao vídeo de ambas vocalizando em frente a minha residência. É possível ouvi-lo de distâncias consideráveis.

Podia ver o ninho a certa distância, claro, e como macho e fêmea se revezavam nos cuidados com os ovos. Em geral, botam de dois a três. Li que os encubam por cerca de quatro semanas, um mês e, em média, depois de 20 dias os filhotes deixam o ninho e seguem os pais.

Com filhos, podia mudar tudo

Estava um tanto ansioso com a reprodução desse casal por quem desenvolvi uma relação afetiva intensa. Já imaginava como seria a reação de macho e fêmea com os filhos do lado e eu perto. Será que permitiriam me aproximar como fazia com eles? Ou seu comportamento mudaria radicalmente? “A partir de agora, mantenha distância, cavalheiro”, poderiam estabelecer.

Também comecei a me preparar para a lei da natureza: provavelmente em breve a família, caso os filhotes nascessem e crescessem sem intercorrências, iria embora. Faz parte do processo. Todos iriam viver suas vidas em outro rincão e na sequência dar a largada para um novo ciclo reprodutivo.

Fiz as contas várias vezes. A não ser que eu tivesse cometido um erro na definição das datas, pouco provável em razão de acompanhar tudo com grande interesse e atenção, mais de 50 dias havia se passado e nada de os filhotes apareceram com os pais no gramado que ainda frequentavam em frente a minha casa.

Identifiquei no macho uma alteração de comportamento. Ainda vinha comer, mas sem a volúpia que o distinguia na refeição matinal. Já a fêmea nem sempre se interessava pelo alimento e só pegava a carne de frango se estivesse a alguns metros de mim. Algo havia mudado e que os levou a rever sua postura diante de tudo. Vocalizavam menos também.



Não dava para ver dentro do ninho, observava-o somente de baixo para cima. O fato é que depois de dois meses nenhum filhote surgiu em casa ou na área. Se tivessem nascido, era lá que estariam, por o gramado e os vários ambientes de meu rancho continuarem sendo frequentados pelos pais.

Sem descendentes

Cheguei à conclusão, provavelmente definitiva, que aquele ciclo não havia gerado descendentes para o casal de seriemas que, por meses, fez usucapião da área, com a anuência do proprietário. Assinado, Livio Oricchio.

Ambos haviam há algumas semanas deixado de tentar me tirar da cama cedo e tampouco as sessões de alimentação se tornaram instantes de prioridade para o casal. Algo mais relevante os impulsionava a agir diferente: o instinto de decolar para outra porção de terra.

Fui me acostumando com a ideia de não ver mais aqueles dois personagens que tanto marcaram o período em que compartilhamos experiências extraordinárias, de elevado teor espiritual para mim. Dia a dia ficavam menos minutos próximo de meu rancho.

Determinado dia, não as vi em nenhum instante. De tarde, em seguida às caçadas, quando em geral permaneciam mais próximas, procurei na internet do laptop um vídeo com a vocalização de seriemas e com o computador na mão, em pé, sobre o gramado, procurei levar o som para todos os lados. Se estivessem por perto, muito provavelmente reagiriam.

Não houve resposta. Foi quando compreendi que, de fato, haviam deixado o meu rancho.

Fiquei triste? Tristeza talvez não seja a melhor definição para o que senti. Estamos falando de comportamentos naturais. Claro que até hoje sinto saudade daquela interação maravilhosa, em especial no fim de tarde, por saber que se encontravam próximos de mim não por causa de alimentos, já haviam saciado sua fome horas antes.

Como escrevi, o contato com o mundo biológico acadêmico me ensinou a encarar tudo isso de forma natural. É o que, em essência, garante a perpetuação da espécie. E não há argumento mais forte que esse.

Superprazer

Caros amigos, foi prazeroso compartilhar com vocês a enriquecedora experiência de dividir por meses o mesmo espaço com um amável, apaixonante casal de seriemas. Aprendi muito.

Se provi uma parte de sua dieta, eles foram muito mais generosos comigo, ao me alimentar com dose bem mais elevada de nobre energia com sua aceitação, seu consentimento em me fazer de certa forma parte de suas vidas por um tempo.

Minha torcida é que estejam bem e possam viver intensamente os 20 anos, em média, de sua longa longevidade na natureza. Acredito que sabem que desejo o melhor para elas. Abraços, amigos.