A interpretação bastante particular da classe política brasileira à elevada mensagem “É dando que se recebe”
Os políticos, como regra, não se sensibilizam por mensagens de elevado grau de espiritualidade. Não têm capacidade de se deixar envolver. Pior: não as usam como exemplo. Não têm consciência alguma de lá estar para servir aos outros, não a si próprios.
GERAL
Se existe uma oração evocada com frequência por parte importante da classe política brasileira é a naturalmente elevada Oração pela Paz de São Francisco de Assis, mas com uma interpretação bem original. Os congressistas pinçaram uma das frases da inspiradora mensagem deixada pelo criador da desprendida ordem franciscana e acreditam, cinicamente, executá-la com perfeição: “É dando que se recebe”.
É provável que nesses dias de recesso do senado e da câmara dos deputados parte importante dos supostos representantes do povo esteja bastante ativa na troca de whatsapps visando como melhor explorar o enorme potencial do nefasto orçamento aprovado dia 19 de dezembro – por eles próprios -, destinado a emendas parlamentares em 2026: R$ 61 bilhões. Ou cerca de 11,3 bilhões de dólares! Em especial por se tratar de um ano eleitoral.
O valor pode vir a ser um pouco menor por conta do veto do presidente da república. Mesmo assim estamos falando de algo como 23 % da verba discricionária, ou livre, aquela não destinada às despesas obrigatórias aprovadas pela Lei de Orçamento Anual no mês passado. Os R$ 61 bilhões representam mais do que o orçamento total de alguns governos estaduais para 2026!
Em termos práticos e de forma simplificada, senadores e deputados federais requisitam ao executivo verbas do orçamento das emendas para projetos que deveriam melhorar a vida de cidadãos em seus redutos eleitorais e, em troca, seus partidos se colocam à disposição para votar pela aprovação do que o governo encaminha para votação no congresso. Embora não seja lei.
Contaminação ampla, geral e irrestrita
Esse modelo de gestão “toma lá dá cá” usando orçamentos milionários não se limita à esfera federal. Nas assembleias legislativas dos estados e câmaras municipais das cidades, são raros os casos de os processos seguirem trâmites normais, onde o real interesse da população é o que importa.
Todos os tipos de negociação são praticados para que os envolvidos sejam favorecidos. Em boa parte das vezes contrárias às prioridades da população e a sua lisura não passa de ficção. É por esse motivo que se diz que o “É dando que se recebe” é endêmico no Brasil.
Há outras formas de se o executivo receber apoio a seus projetos por doar algo aos políticos, a exemplo da distribuição de ministérios e cargos de vários escalões em empresas estatais, dentre outras.
Aqui vale a informação: o Brasil é uma das nações com maior número de ministérios no mundo, 38, incluindo secretarias com status de ministério. Para se ter melhor compreensão do que isso significa, os Estados Unidos têm 15, Alemanha e França, 16, China tem 8, Coreia do Sul, 12, Argentina, 18, México, 20.
Outro dado revelador de como a política é praticada no Brasil provém do número de partidos inscritos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE): 30! Com cerca de metade deles com representantes no congresso. A média mundial é de 4,1 partidos por país.
Essa realidade expõe a idiossincrasia brasileira no modelo de gestão. Faz parte do DNA da nação ter de negociar acordos para implantar algo.
Será que existem tantas ideologias assim no mundo que justifiquem a existência de 30 partidos? Será mesmo que há tantas possibilidades de orientação filosófica capazes de respaldar esses partidos?
Ou será que esse arranjo, essa pluralidade de “visões administrativas” não passa de uma forma de seus representantes no congresso também poderem participar da distribuição do bolo, não apenas das emendas?
No Brasil, da vereança à presidência da república quase todos no executivo e legislativo pregam a Oração de São Francisco de Assis nesse formato bem particular. A coisa atinge também parte do Judiciário. Afinal todos se dizem “filhos de Deus”.
Até mesmo a última instância jurídica da nação – de quem principalmente deveríamos esperar isenção nos julgamentos - é bastante ativa no “É dando que se recebe”.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) funcionam como defensores dos interesses dos presidentes que os levaram até lá. Ganham um cargo vitalício com salário que corresponde ao teto no funcionalismo público, cerca de R$ 46 mil, ou 29 vezes o salário mínimo, e tantos outras mamatas desrespeitosas com o povo, mas não é à toa. Os presidentes que os escolheram deixam claro o objetivo: apoiá-los em tudo o que for possível.
Dá para apostar, com boa chance de ganhar, que a grande maioria dos políticos, mesmo dentre os ditos evangélicos, desconhece o texto da oração - e sua real grandeza - para se ater apenas àquilo que lhes convém, o refrão “É dando que se recebe”.
Fora do contexto da Oração da Paz, a mensagem é mesmo dúbia. Parece que para obtermos algo é preciso, antes, dar alguma coisa. Essa reciprocidade sugere ser imperiosa. Ocorre que como a frase atende com perfeição os interesses da classe política, o restante da reza deve, estrategicamente, ser desconsiderado.
Desprendimento verdadeiro
O universo dos homens desprendidos, seguidores conscientes ou não de São Francisco de Assis, é formado por indivíduos que sequer se identificam nas doações, fazem questão de permanecer no anonimato.
Sabe por quê? Ainda que não fazem por essa razão, sabem que vão, sim, receber. E muito mais que o doado. É uma lei. Para os religiosos, de Deus. Para os menos ortodoxos, uma lei da natureza, das energias que emanamos. E recebemos.
E aqui a Oração pela Paz ou simplesmente uma filosofia a ser seguida é observada na plenitude. Veja como “É dando que se recebe” funciona diferente. Atente a sua segunda parte:
“Ó Mestre
Fazei com que eu procure mais:
Consolar, que ser consolado
Compreender, que ser compreendido
Amar, que ser amado
Pois é dando que se recebe
Perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive a vida eterna
Amém”
A classe política brasileira em boa porção não tem sensibilidade por mensagens de elevado grau de espiritualidade. Seus representantes leem e não têm capacidade de se envolver. Pior: não usam como exemplo a ser seguido, em especial por quem exerce função de servir aos outros. Falta-lhes consciência básica da principal razão de lá estarem.
A nação lhes dá o voto, mas não recebe dos eleitos, como regra, a contrapartida.
E lá fora, como funciona?
Políticos em outros países têm também essa prerrogativa de emendas, mas nos Estados Unidos, Espanha, França, Itália, por exemplo, corresponde a no máximo 1% do orçamento livre do governo e, na maioria, os processos são conduzidos por comissões e representantes partidários, não individualmente como na maior parte das vezes no Brasil.
Importante: tudo com prestação de contas absolutamente auditadas, em oposição ao Brasil.
É surreal, altamente irresponsável, comprometer cerca de 23% do orçamento livre do governo para atender interesses particulares de senadores e deputados federais, em detrimento de fortalecer políticas públicas definidas por estudos profundos do que melhor atende às necessidades da população.
O mais chocante nessa história é que desde a sua origem, em 2020, até o fim do ano passado, não era preciso tornar público o nome do político requerente, o valor da verba, o destino, assim como não havia nenhuma rastreabilidade das fortunas liberadas. Em outras palavras, faça o que bem entender com o dinheiro, sem ser necessário prestar contas. Imagine isso nas mãos dos políticos brasileiros.
Os escândalos de corrupção em alta escala estão apenas começando a vir à tona. Em razão dos valores envolvidos, R$ 61 bilhões este ano, R$ 59 bilhões em 2025, possivelmente estamos diante dos maiores casos de desvio de verba pública da humanidade.
Um verdadeiro orçamento secreto
Dá para compreender, melhor, agora, o motivo de o programa de emendas parlamentares ter ganhado o procedente apelido de orçamento secreto?
Foi somente em outubro do ano passado que o ministro Flavio Dino, do STF, mudou as regras, condicionando a liberação das emendas parlamentares à existência de transparência e rastreabilidade nas transações. Obviamente com profunda revolta do congresso! A argumentação da classe é de uma hipocrisia única.
De volta a 2026, nesse instante o pensamento da classe política é um só: não há tempo a perder. Quando voltar à ativa, dia 2 de fevereiro, depois das “merecidas” férias, será preciso agir rápido.
Quanto mais cedo as verbas de emendas chegarem a suas mãos, mais poderá capitalizar em seus domicílios eleitorais visando se reeleger no pleito de 4 de outubro e seguir desfrutando dessas benesses únicas no mundo, sempre em nome do “É dando que se recebe”.
